As festas acabaram e Joseph regressou a França.

A minha rotina ali naquela vila solitária, era cada vez maior e mais estafante, pois o meu tio encontrava-se cada vez mais debilitado e sem possibilidade de me ajudar.

Agora mal saia de casa por isso todo o trabalho sobrava para mim. O empregado doméstico só se limitava à limpeza e arrumação dentro de casa dizendo que não era nenhum agricultor ou pastor.

Apesar de Alberto mal se poder mexer ainda julgava poder vir a fazê-lo um dia, e como prova disso nem me deixava levar o prato dele para a mesa e nem me deixava desfazer de alguns animais continuando a afirmar que um dia que estivesse melhor voltaria a tratar deles sem precisar da minha ajuda.

Há noite eu sempre arranjava um tempinho, antes de me deitar, para conversar com Joseph. Ele sentia-se incomodado com a minha forma de vida dizendo que não era vida para ninguém, ali estava a perder muitos anos da minha vida e só daria valor mais tarde. Mas que podia eu fazer? Não iria abandonar o meu tio e jamais o colocaria num lar de idosos. Aquele era o meu dever enquanto sobrinha.

Rufus sempre ia ter comigo ao quarto, a expressão dele ao olhar para mim, dava dó, parecia que sentia todo o meu sofrimento. Rufus era um fiel amigo, não largava do meu pé, perseguia-me todo o dia durante as minhas tarefas.

Misty, pelo contrário era muito agarrada ao meu tio, quando ele se sentava a ver TV ela não parava de lhe ruçar as pernas o tempo todo. Ao deitar, dormia com ele como se quisesse vigia-lo de noite também.

Rufus deixava-me sempre adormecer para depois subir de mansinho na minha cama para depois dormir lá a noite. Cansada como eu sempre estava só dava por ela de manhã quando acordava, mas com a expressão que ele fazia nunca consegui ralhar com ele.

Um dia, já a meio da manhã estranhei o meu tio não sair do quarto, então fui ter com ele.
BeAz – Tio está tudo bem?
Alberto –Sim, porque haveria de não estar?
BeAz –Hoje ainda não saiu do quarto por isso estranhei.
Alberto –Estou a ler um livro, ou será que agora já não posso ler?
BeAz –Sim, claro que pode. Posso servir o almoço?
Alberto –Quando tiver fome irei almoçar. Se quiser sair, faça-o, não se preocupe comigo.
Aquilo me soava muito estranho e nos últimos dias nem saia para lado nenhum, era o criado ou a carrinha da entrega que trazia as compras. Porque ele estaria a dizer aquilo?
Mais tarde.
BeAz – Tio, já são 3h da tarde, trouxe algo para você comer.
Alberto –Está bem, deixa ficar aí que eu já pego.
Aquilo não me estava a suar nada bem, nem para ir à casa de banho o vi levantar, como poderia isso ser? Resolvi chamar um médico a casa.
Depois de examinar Alberto.
BeAz – E então, Sr. Doutor?
Doutor – Eu não a quero assustar, D. BeAz mas o seu tio tem uma paralisia, terá de o levar ao hospital para fazer exames, aqui não lhe posso informar mais nada. Telefone depois para marcar uma consulta.
Depois de dar banho ao meu tio e deixar-lhe uma fralda, decidi que já era trabalho demais para mim. E como ele já não se levantava, era altura de eu atuar, pois já não aguentava com todo aquele trabalho com os animais fará agora com o meu tio entrevado numa cama. Aproveitei Joseph ter se disponibilizado para quando eu quisesse levar Balin a Osmar que ele cuidaria dela, e assim fiz. Ele logo se prontificou me tranquilizando que ela ficaria bem entregue. Eu tinha a certeza que sim.
Regressei a casa para receber a Proteção Civil dos Animais que chamara, alegando que não poderia cuidar mais deles uma vez que teria de cuidar do meu tio, agora entrevado. Só iria ficar com Rufus e Misty. Ao ver tudo tão vazio não aguentei a emoção e chorei.
No dia seguinte quando cheguei ao quarto do meu tio, ele não respirava, de imediato chamei o 112 e levaram-no ao hospital. Impaciente eu esperava o médico cá fora.
Doutor – Lamento, BeAz, não conseguiram fazer mais nada. Foi um AVC fatal, deve lhe ter dado durante a noite. Os meus sentimentos.
Levei as mãos à boca e respirei fundo para conter um ataque de choro. Rufus, depois de uma correria atrás da ambulância acabava de chegar e começara a uivar. Agarrei-me a ele a chorar e voltei para casa.
Cheguei a casa e liguei para Joseph, para lhe contar o sucedido, ele prontificou-se logo a ir ter comigo para me apoiar e ajudar no que fosse preciso, chegaria amanhã de manhã.
Passei o resto do dia sentada no sofá da sala sem apetite e sem saber o que fazer. Pela primeira vez, não tinha nada para fazer. E Rufus chorava comigo uivando e esticava a pata como se quisesse me dizer alguma coisa.
Depois de tanto chorar e já de madrugada, acabei por adormecer na cama do meu tio.
A campainha tocou e eu dei um salto na cama. Era Joseph, tinha partido no primeiro voo e já estava à porta de casa.
Abracei-o e apertei-o tanto quanto podia, parecia que com isso conseguiria segurar as lágrimas que teimavam em querer escorregar pela minha cara a baixo.
Depois de nos prepararmos para o enterro seguimos para o cemitério. Mais uma vez chorei como uma desalmada e Rufus acompanhou-me.
À saída do cemitério Joseph perguntou-me por Misty. Rufus perseguia-me para todo o lado mas Misty, onde estaria Misty? Nisto, Rufus ladra ao ouvir a palavra Misty.
BeAz – Agora percebo o que Rufus queria me dizer ontem à noite o tempo todo me esticando a pata, ele queria me chamar a atenção para Misty.
BeAz – Tu sabes, Rufus, sabes onde está a Misty?
Rufus abanou a cauda e ladrou. Claro que ele não sabia, por isso tentou me avisar o tempo todo. Ela desaparecera no dia que Alberto foi para o hospital e nunca mais voltou.

Seguimos para casa a pé na esperança de ainda encontrar Misty pelo caminho.

Chegámos a casa e nada de Misty. Joseph ligou para a Protetora de Animais mas ninguém encontrou a Misty, ficaram de ligar se a encontrassem. Joseph mudou de roupa e foi preparar alguma coisa para pormos no estômago. Eu sentia fome pois já não tinha jantado no dia anterior mas não tinha apetite nenhum.

Enquanto isso eu encostei-me no sofá e acabei adormecendo.

Joseph – tens de fazer um esforço para te alimentares, não podes ficar assim tanto tempo sem comer.
BeAz –Eu tenho noção disso mas a comida não passa na garganta.
Joseph –Come pelo menos duas ou três garfadas.
Depois de jantar, Joseph arrumou a cozinha enquanto eu me deitava. Depois foi ler para a minha beira enquanto eu adormecia.
No dia seguinte fizemos as malas e passámos por casa de Osmar. Eu não queria ficar nem mais um segundo naquela casa. Mas também não sabia bem para onde ir pois não me apetecia ir para lado nenhum. Joseph disse para eu não me preocupar, iria com ele até que me sentisse bem para refazer a minha vida. Claro está, o Rufus iria connosco. Joseph também não tinha planos para voltar a Appaloosa por isso deixou a sua casa a Osmar, seu grande e inseparável amigo de infância. Osmar também trataria da venta da casa do meu tio.

















